Correndo em busca da leveza perdida
- Denise Polonio

- 18 de nov. de 2016
- 4 min de leitura

Chego sozinha em Bruxelas cerca de 1 semana antes do dia de correr 21km na Meia Maratona de Amsterdam. Fui ao encontro de uma amiga, a qual posso dizer, foi responsável por eu acrescentar mais esta medalha em minha coleção e senão por isso, por render mais este post para o blog.
Para quem já correu maratona (no meu caso foram 4), a disposição de correr 21km me fez sentir como se estivesse voltando para o jardim da infância e não consegui evitar um certo menosprezo por mim mesma ao estabelecer um objetivo tão modesto. Cumpri as planilhas de treino integralmente sem precisar mudar em nada minha rotina diária, conciliando com tranquilidade a corrida com minha agenda profissional, social e familiar mas devo confessar que tal segurança me deixou um pouco displicente com a alimentação e também com outros cuidados específicos como musculação, suplementos durante e após os treinos. Não me privei de nada do que tive vontade sem exagerar, contudo. Mas no frigir dos ovos, sempre vem a conta com todas as extravagâncias registradas e acrescidas da taxa de 10% criando um peso extra não exatamente no meu bolso mas sim no local do meu corpo onde estes se alojam.
A estadia na terra do Tintim* foi como desfrutar do paraíso sem antes passar pelo purgatório já que em cada esquina cedi à tentações capazes de colocarem à prova até a fé do mais convicto dos fiéis. Nas três cidades da Bélgica onde estive, Bruxelas, Bruges e Ghent, tudo pareceu ser meticulosamente construído e arrumado de modo a causar deleite para os sentidos e por mais que eu evitasse a visão, o olfato fatalmente sucumbia aos incontáveis e irresistíveis aromas de doces, chocolates e waffles, capazes de gerar uma atmosfera deveras familiar que me transportou à casa de minha avó de um modo que somente Marcel Proust* poderia explicar.
Mas como neste cenário medieval nem tudo que seduz é doce, as cervejas, as batatas fritas e os famosos moules (mexilhões) pesaram não apenas em minha consciência e então, numa manhã fria e cinzenta, eu e minha amiga Amanda, saímos para uma corrida pelas ruas de Bruxelas numa espécie de auto indulgência e também para lembrar aos nossos músculos que eles não estavam lá somente à passeio.
Chegamos num final de tarde na estação central de Amsterdam e pudemos notar a cidade já se preparando para o grande evento que recebeu no total, dentre as três distâncias, 8km, 21km e 42km, cerca de 45.000 corredores do mundo inteiro. Além da retirada do kit no Estádio Olímpico, nossa programação de visitas na cidade incluiu a Casa de Anne Frank, um concerto no The Concert Gebouw e como não poderia deixar de ser, o Museu de Van Gogh. Dizer-se apreciador da arte deste grande e postumamente reconhecido pintor é mesmo um lugar comum mas meu antigo e eterno fascínio por seu trabalho se dá ainda mais por conhecer sua trajetória de vida, suas angústias e inquietações. Ao observar as telas expostas nas paredes do museu, fui profundamente tocada por sua expressão vigorosa e tive a impressão de que as pinturas não se continham em suas molduras e num apelo dramático pareciam gritar pelo reconhecimento de uma beleza quase pueril mas acima de tudo plena de emoção e do espírito de sua época.
Logo que chegamos em Amsterdam, entrei numa espécie de catarse com esta cidade que me pareceu envolta numa atmosfera da mais pura insustentável leveza do ser* sintetizada a partir de uma sensação de liberdade acompanhada de uma invejável maturidade existencial. Assim continuei a viagem, num espírito de doce inconsequência deixando que meus pés percorressem um percurso traçado por minhas mais profundas e sinceras emoções outras vezes por vontades banais ou desejos efêmeros.
Apesar de poder me considerar uma corredora experiente, não pude deixar de sentir uma certa ansiedade e um frio na barriga ao me dirigir para a largada e aguardar o momento de sair correndo para concluir mais esta prova "sem fazer feio" pois, por mais que eu tentasse convencer a todos e a mim mesma de que correria despretensiosamente, arrisco dizer que há na alma de quase todo corredor um desejo incontrolável de superação. Não esperava baixar meu record pessoal, que para a distância é de 1:54'16" mas queria sim terminar com o tempo máximo de 2 horas.
Nas últimas 2 maratonas que fiz, Chicago, em 2013 e Tromso-Noruega, em 2015, corri tentando "curtir a prova" (como sugerem nossos treinadores), se é que isso é possível após o 28º km! Desta vez, resolvi não me distrair com as pessoas, paisagens e cenários, me mantendo concentrada durante quase todo o percurso. Evitei ultrapassagens que me fizessem desviar do caminho, procurando me manter ao máximo em linha reta sem dar as famosas "costuradas" as quais, além de nos fazerem correr para os lados, ainda resultam numa quantidade excedente na conclusão da distância pré estabelecida e nos rouba valiosa energia.
Não sei dizer ao certo os locais da cidade por onde passei tal fora a minha introspecção mas a chegada dentro do estádio olímpico foi gratificante e ao cruzar o pórtico, ao final de 1:58'36" me senti abençoada pelos deuses do olimpo.
Ainda não sei qual será meu próximo desafio para 2017. Pode ser outra Maratona ou Meia-Maratona, uma Corrida de Montanha ou de Aventura. Seja qual for, farei com que seja leve e que eu possa fazê-la por prazer e por tudo de lúdico que a corrida me traz.
Notas de Rodapé:
* Tintim é um personagem criado em 1929 por Georges Prosper Remi (conhecido como Hergé), nascido em Bruxelas em 1907. Suas aventuras ocorrem nos lugares mais exóticos do planeta e apesar de sua leitura contribuir para a compreensão das tendências de uma época, sejam políticas, filosóficas ou espirituais, algumas de suas histórias reforçam os preconceitos do imperialismo.
* Marcel Proust foi um escritor, ensaísta e critico literário francês nascido em 1871. É autor da obra-prima “Em Busca do Tempo Perdido”, publicada em sete volumes. Neste post, faço referência as madeleines e uma xícara de chá que ativaram as reminiscências de um escritor frustrado. Proust atribui ao paladar e ao olfato a função de “convocar o passado”.
* A Insustentável Leveza do Ser é um livro publicado em 1984 por Milan Kundera e a história deste romance que se passa em Praga, foi adaptada para o cinema pelo diretor Philip Kaufman. Através deste romance, o autor coloca a dualidade do peso e da leveza numa perspectiva existencial, associado a problemática da liberdade humana.





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