Vou vivendo
- Denise Polonio

- 3 de fev. de 2017
- 2 min de leitura

Balanços cada vez mais me angustiam por isso não farei uma retrospectiva do ano de 2016 até mesmo porque, a ideia de linearidade do tempo é algo que felizmente me escapa à compreensão, especialmente enquanto estou correndo, contraditoriamente enquanto vou vivendo. Além do mais já entramos no mês de fevereiro e não vou ficar me *guardando para quando o carnaval chegar (ou passar).
Em minha época de estudante da faculdade de arquitetura e urbanismo, ia com relativa frequência a um bar que ostentava na fachada uma estátua de Pixinguinha languidamente sentado em uma meia lua com um céu estrelado ao fundo flutuando sobre prosaicas cadeirinhas e mesas em miniaturas dispostas numa improvável sacada que servia de suporte para o indefectível *Vou Vivendo, lindo nome para uma música, sugestivo nome para um bar. Este lúdico cenário incrustado no meio de um quarteirão da Avenida Pedroso de Moraes, no bairro de Pinheiros-SP, era poderosamente capaz de arrancar suspiros nostálgicos até do mais pragmático dos transeuntes.
Ao descrever este cenário, sou estranhamente transportada para estes tempos e chego até a sentir o cheiro de cigarro, mofo, perfume e bebida misturados a mais alguns aromas que escapavam das frigideiras de onde saíam pastéis e outros petiscos despretensiosos responsáveis por criarem uma atmosfera deliciosamente amigável.
Não sou capaz de dizer o quanto as coisas se modificaram desde então. O bar já não existe mais, as pessoas hoje talvez achassem graça naquela fachada quase infantil e sentiriam ganas de acrescentar um grafite naquele céu para torná-lo mais conectado às pessoas transformando-o em uma expressão mais apropriada aos nossos tempos (sic). Mas o que realmente importa, (e demorei até aqui para me dar conta) se refere à nossa capacidade de viver o passado quantas vezes o nosso inconsciente nos arremessar para ele e assim começo a compreender o que de fato Borges Luís Borges* queria dizer ao concluir que o presente não é um dado imediato da consciência ou seja, que o presente não se detém pois este contém sempre uma partícula de passado e outra de futuro.
Algum tempo já se passou desde o ultimo post aqui neste blog, vários treinos cumpridos à risca mas só consigo me lembrar das corridas feitas em Ilhabela, na última semana do ano que foi para mim, muito mais do que uma efeméride mundialmente comemorada com expectativa pela grande maioria das pessoas. Naquela semana, distante do cenário e das pessoas de meu convívio cotidiano, pude ganhar perspectiva sobre muitas das partículas de passado que deram forma ao meu presente e em meio a um percurso tortuoso e de paisagem fechada pelo norte da Ilha, surpreendentemente surgiu um mirante se oferecendo para que eu pudesse debruçar o meu olhar sobre o horizonte e assim cogitar o futuro.
Sim, tenho planos de corrida para o ano e vou contando por aqui nos próximos posts.
Mas o mais importante a meu ver são os caminhos percorridos com paixão e intensidade se mostrarem sólidos em toda sua efemeridade.
CItações deste post :
* Quando o Carnaval Chegar- Música de Chico Buarque de Holanda
* Vou Vivendo- Musica de Pixinguinha
* Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'








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